Nabos entalhados com as caras do Jack’o

A história sobre Jack o’ ou Jack o Avarento, também chamado de o Mesquinho; eram o motivo para os nabos horrorosos estarem espalhados pelo vilarejo. Segundo crenças antigas, a cara retorcida de Jack espantaria os maus espíritos. A lenda mudava de um lugar para outro, especialmente porque vinha sendo recontada da Irlanda e da Escócia. Mas todos temiam Jack, ele era amaldiçoado, um espírito tão terrível que não foi aceito no inferno, muito menos no céu. Então ficou preso no mundo dos vivos e saía no dia trinta e um.

— Jack pode ser ferido? — indagou Dorothy enquanto marchava para o coche.

— Milady, ele é um espírito maligno… — o cocheiro estremecia só de informar isso.

— Arranje homens sóbrios — mandou ela, sem parar.

— Será um tanto difícil — murmurou o rapaz, enquanto se apressava para acompanhá-la.

— Nem que tenha que tirar o pastor da cama.

— Mas milady, ele está cantando na roda no lado norte. E deve ter bebido um pouco…

Para pavor do pobre rapaz, Dorothy tirou as armas que carregava na caixa sob o banco, checou a munição e bateu a porta. Tristan fazia questão de ter armas escondidas em todos os veículos e também em outros locais que ninguém imaginava.

— Os mais sóbrios que encontrar, quero saber onde estão essas moças e quem foi que armou a brincadeira na sala escura.

— Mas madame…

— E veja onde foram parar os convidados de lorde Bardon — ela estreitou o olhar. — Quando me viram, começaram a sair de fininho. Muito suspeito.

Sem conseguir lidar com várias ordens e com seus temores, o rapaz saiu em disparada para começar a cumprir o que a condessa mandou. Dorothy passou pela rua principal com a pistola na mão, fazendo sobrancelhas pularem. Para completar, ela tinha colocado um vestido modificado especialmente para a festividade. A saia tinha o formato de A e tecido leve como gaze formava uma leve e etérea camada por cima do vestido de inverno que ela usava. Pensando em entrar no tema sobre esse também ser o dia que fadas faziam uma grande festa, Dorothy escolheu gaze clara e seda de um dourado pálido como detalhe.

Os habitantes do vilarejo e participantes dos festejos acharam o traje dela gracioso, digno de uma condessa e apreciaram seu esforço em participar. Mas esqueceram completamente disso ao verem que a talvez a condessa combinasse mais do que devia com o endiabrado que tinha como marido.

A noite avançou e risadas se misturaram a tensão, Dorothy chegou nos últimos raios do dia, mas a queda brusca de temperatura tinha feito uma leve névoa subir. As fogueiras e tochas causavam mais fumaça, dispersando o frio, mas aumentando a sensação de mistério do dia mais assombrado do ano. E não era momento de lua cheia, mal dava para ver algumas estrelas.

— Mary voltou! — contou o irmão mais novo da moça que correu até a condessa. — Ela disse que foi a um local muito grande. E viu tudo rodar, mas está inteira.

— Você pensou que os espíritos iriam devorá-la? — indagou a cigana, jocosa.

Mas inteira em que sentido? Dorothy resolveu atravessar o vilarejo para o lado oeste outra vez, no entanto, viu mais um amontoado de gente. Será que esse dia era sempre tão cheio de acontecimentos? Ela não lembrava de ter visto nada tão animado nesse dia quando morava com o tio. Infelizmente Cecilia estava visitando seus amigos do grupo de Devon e se por aquelas bandas fosse tão cheio de acontecimentos, Dorothy já temia os problemas em que a prima se envolveria.

— Temos de levá-los! — gritou um dos fazendeiros.

— Esse aqui está com o nariz quebrado — apontou o dono da mercearia ao se inclinar para ver.

— De qualquer forma, o médico já foi chamado à casa de lorde Bardon, parece que aconteceu algo grave por lá — contou outro.

— Cavalheiros — chamou Dorothy e eles se afastaram, pulando como se temessem encostar nela.

Foi quando ela descobriu que eles tinham tirado dois rapazes do meio das árvores e eles tinham apanhado um bocado. Um estava desacordado, o outro gemia e cobria o nariz ensanguentado.

— Jack atacou novamente — veio a voz sombria da Sra. Sealy por trás de Dorothy.

— A senhora tem que parar de acusar o Jack de tudo — reclamou o dono da mercearia. — Meu Jack está ocupado protegendo meu negócio de espíritos ruins e senhoras impressionáveis — ele apontou para o enorme nabo cravado numa estaca bem em frente a sua porta, com o rosto assustador entalhado a base de ponta de faca.

Gritos do outro lado chamaram atenção deles e dessa vez Dorothy se apressou para pegar o assunto no início. Esperava que nenhuma outra moça em busca de marido tivesse visto mais uma caveira, nesse ritmo teria de mandar buscar calmantes e não tinha um acervo tão grande na caixa de remédios da propriedade.

— Eu vi, eram três caveiras! Eles queriam me carregar, mas o espírito da lanterna apareceu e espantou todos eles! — a jovem Francis estava sentada num degrau, olhos arregalados, as mãos movendo-se no ar enquanto contava a todos o que viveu.

— Mas essa aqui não tinha fugido? — indagou a cigana.

— Para o mato, a pobre diaba tola — contou a senhora das maçãs.

Desconfiada daquela história de três caveiras e um espírito da lanterna, Dorothy foi para o lado onde tinha visto os convidados de lorde Bardon, aproveitou a confusão que distraiu todos e se esgueirou entre as primeiras árvores, onde as luzes das tochas e fogueiras não chegavam bem. Francis não podia ter ido longe, pela distância da casa, ela tinha se escondido por ali.

Bastou alguns passos além do raio das luzes para Dorothy sentir que não estava mais sozinha.

— Está perdida, docinho? — indagou uma voz masculina. — Em busca do espírito de um marido para esta noite?

Estava escuro o suficiente para ela ver só a sombra da pessoa e o branco da caveira que só podia ser uma máscara pintada. Dorothy se virou, puxou a pistola e atirou. Às cegas mesmo, mirando no movimento do corpo dele. Ela ia acabar de uma vez com essa história, pois desde quando espíritos eram acertados por balas?

O urro que seguiu o tiro foi a prova que ela acertou carne humana. Porém, não foi um tiro certeiro, pois o seu visitante se afastou rápido. Ela voltou para perto do raio de luz que as tochas e fogueiras proporcionavam, mas antes de sair não só sentiu como sua visão periférica pegou uma sombra movendo-se rápido. Girando, Dorothy recarregou. No entanto, não ouviu nenhum som e nada mais se moveu. Antes que descobrisse que além de gente pregando peças e causando problemas, também havia espíritos à espreita, ela correu para a luz.

***

A gritaria tomou conta daquele lado do vilarejo assim que o som do tiro soou. Algumas mulheres se abraçaram, pegaram as poucas crianças que estavam soltas naquele horário e empurraram maridos, filhos e outros para resolverem. Contudo, era uma noite para ter medo de espíritos, não de tiros. E muita gente viu a condessa, trajando aquele belo vestido, atravessar a rua principal com uma pistola na mão.

E onde estava ela?

— A condessa! — gritaram várias pessoas e correram para a beira do bosque.

Como explicariam ao conde de Wintry que um vilarejo inteiro — incluindo diversos habitantes que trabalhavam para ele — perdeu sua esposa de vista quando ela esteve bem ao lado deles da última vez que olharam? O cocheiro viu tudo rodar e teve que ser amparado antes de desmaiar. No entanto, Dorothy retornou a parte iluminada, levando sua pistola na mão. E expressão era de irritação, não de pavor.

— Não sei se acertei o maldito, acho que foi de raspão, ele correu! — ela passou por eles, deixando as pessoas em suspensão, sem saber se seguiam a condessa ou iam ver o que ocorreu no mato.

— A senhora atirou em um espírito? — indagou um dos homens, a expressão não escondia o espanto.

— Um homem usando uma máscara de caveira — retorquiu ela.

E a senhora simplesmente atirou? — pensaram eles, lembrando que sabiam menos sobre a condessa do que imaginaram. Mas Wintry era tão infame que sua fama estava correndo a Inglaterra, era óbvio que a esposa dele seria uma caixa de surpresas.

Nem todos acreditaram que ela havia atirado numa pessoa de verdade e não num espírito, pois o urro também foi ouvido e soou assustador como algo vindo de um fantasma. Ou simplesmente de um homem sofrendo de uma dor terrível e súbita, como um tiro. Então levou cinco minutos para pegarem tochas e investigarem o local que Dorothy indicou ao passar. E em vez de descobrirem só um homem local usando uma máscara de caveira para assustar e bolinar as mulheres, encontraram mais três dos convidados de lorde Bardon. Incluindo o pobre que levara o tiro e agora tinha outros ferimentos.

— Mas não era só um? — perguntou o dono da mercearia ao se abaixar e iluminar os coitados.

Esses não estavam tão surrados como os outros dois, mas tinham ferimentos que a condessa não teria tempo e nem condições de infligir. Como ela teria dado uma pedrada em um homem, um tiro em outro e deixado um terceiro desacordado de forma misteriosa?

— Meu Senhor, estamos cercados de espíritos! — alardeou um dos homens ao sair correndo do mato e fugir pela rua principal, alardeando que estavam sendo assombrados.

Misteriosamente, com o avançar da noite, a Sra. Sealy tinha desaparecido. No entanto, alguém disse que a viu entrar no mato perto da casa dela. E pelo que se sabia, ela estava indo encontrar o “marido” como sempre fazia nesse dia. Outra moça apareceu perto da fogueira e disse que uma caveira a pegou perto do espelho, mas depois ela viu um lugar grande, uma luz fantasmagórica e só voltou a acordar quando já estava na entrada do vilarejo.

— Foram as fadas que a trouxeram de volta — declarou a mãe da moça, aliviada por nada ter lhe acontecido.

— E se a condessa for uma delas? — disse uma das mulheres, depois de duas canecas de cerveja e umas doses de gim.

— Não fale tolices, mulher — reclamou a senhora das maçãs, enquanto seguia carregando uma grande cesta com mais frutas. — Fadas só aparecem para nós no dia trinta e um e nenhuma delas se encantaria por um diabo bonito e corrompido como o conde de Wintry.

— Eu nunca tinha visto a condessa antes… E foi depois que ela chegou que as moças voltaram e os espíritos expulsaram os atrevidos — resmungou a mulher, soluçando cerveja.

— Claro que viu, você está bêbada, Beth — ralhou a primeira.

Estava tarde e Dorothy pensou em retornar para a mansão, perderia a parte mais selvagem da noite, mas como poderia piorar depois que sabotaram a sala do espelho, moças sumiram e reapareceram misteriosamente? A viúva Sealy já havia desaparecido, algumas pessoas fugiram com medo dos espíritos. E os convidados de lorde Bardon tinham aprontado e apanhado. Sem contar o fato de que ela tinha atirado em um deles.

— Terei de explicar tudo isso aquele maldito — reclamou ela, ao pegar mais avelãs assadas.

E ela havia acabado de ver uma camareira num canto se atracando com um dos cavalariços, teria de fingir que não viu nada. Viu outros de seus empregados aprontando todas ou bebendo e flertando. As moças solteiras que trabalhavam para ela estavam correndo pelo vilarejo tentando descobrir se iam se casar e até ouviu uma delas dizendo que queria que uma das caveiras a levasse para “passear” também.

— Milady, a névoa desceu e não sobrou nenhuma luz do dia. É melhor se recolher, é nesse horário que as coisas ficam estranhas — avisou o idoso junto a uma das cestas de maçãs.

— Pare de tentar afugentar a dama, Regi — ralhou a senhora das maçãs.

Dorothy descobriu que aquele era o pai da senhora e o negócio deles eram justamente frutas e reservavam muitas maçãs para esse dia.

— É a verdade — insistiu ele. — Pode sentir o frio nos ossos? É nesse horário que acabam as aventuras e traquinagens dos jovens e chegam os verdadeiros espíritos — a voz dele era baixa.

— Aventuras e traquinagens? O senhor estava dormindo? — reagiu Dorothy.

— Não dê importância para ele, papai diz que no tempo dele havia até mortes.

Dorothy se virou para o idoso e sua expressão foi se alterando para algo entre a seriedade e a malícia:

— Talvez já tenha havido mortes nesta noite — anunciou ela. — Sangue nobre foi derramado.

O idoso arregalou os olhos e deu um passo para trás, depois se virou e foi arrumar as maçãs, ele não lembrava de já terem matado algum dos aristocratas locais numa dessas noites em que os espíritos ficavam soltos pela terra. E Dorothy sabia que para o povo, derrabar sangue nobre era algo grave, mesmo que ela estivesse muito mais preocupada com o fato de estarem sequestrando as jovens mulheres do vilarejo.

Mesmo que alguém estivesse devolvendo-as fisicamente intactas, porém, apavoradas.

— Não se preocupem, estou voltando para o lado leste. De lá, tomarei meu rumo. Acredito que na parte mais próxima à minha casa não teremos tantos problemas.

Ledo engano. Enquanto seguia rua acima, Dorothy voltou a ver a viúva Sealy. Ela corria, segurando o vestido escuro na altura dos joelhos e outras pessoas se juntavam a ela.

— Jack voltou! Está caçando no mato! Ele matou esta noite! Eu vi!

Dorothy não deixou de perceber que a mulher estava com os botões abertos, mas olhou para trás e viu que um grupo diferente estava chegando a cidade. Empregados e mais convidados da casa de lorde Bardon estavam tomando o lugar, provavelmente para descobrir quem surrou — e atirou — nos rapazes.

Foi a deixa dela para seguir em frente e cortar caminho, perdendo seu cocheiro de vista em meio a confusão de pessoas fugindo e de outras curiosas para saber o que aconteceu. Parando um minuto para lembrar o caminho, Dorothy entrou entre as árvores da direita, se desse a volta por trás, sairia na entrada onde deixou seu veículo.

— Se eu fosse você, não continuaria por esse caminho — disse uma voz atrás dela.

5 thoughts on “Halloween com Jack’o

  1. Dot, como sempre destemida e pronta para resolver uma mistério.
    E Lucy como sempre desvendando as superstições da época e nós presenteando com esse conto…..

  2. Ah mulher pode começar a escrever mais hein que saudade kkk agora vou reler tudo de novo kkk escreve mais vai

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