Um arrepio percorreu as costas de Dorothy. Depois de tudo que consertou e causou nas poucas horas que ficou no festival, havia sido pega desprevenida? Mas quantos outros lordes sem escrúpulos havia no tal banquete de lorde Bardon? Ela pensou que todos que estavam pregando peças no festival já tinham sido carregados de volta para a mansão do vizinho.

Contudo, ela conhecia aquela voz. Ou estava imaginando coisas? Será que estava influenciada pelo clima fantasmagórico da véspera do dia das bruxas?

— Eu vou atirar — ameaçou ela, mas dessa vez não se virou.

Apesar do aviso, ela girou num pulo e apontou a arma. Tudo que viu foi uma sombra escura, névoa e uma lanterna que balançava suavemente da mão direita dele, pendurada por duas correntes. Do jeito que tinham descrito Jack o Avarento. Uma máscara horrenda como as expressões que faziam nos nabos cobria o rosto da sombra.

Ela já ouviu dizer que espíritos do mal podiam assumir a forma que quisessem para ludibriar pessoas. Mas era tolice. Não acreditava nessas coisas, não é?

Dorothy engatilhou a arma e apontou para o centro do peito do que seria a pessoa, do jeito que Tristan lhe instruiu.

— Teve algumas aulas? Porque acertar um alvo no escuro é difícil — comentou ele.

— Mostre-se!

— É perigoso, estão me caçando — contou ele.

Ela abaixou um pouco a arma, preocupada. Ele não estava disfarçando a voz e Dorothy estava acostumada a ouvi-lo falar à sua volta e até a sussurrar em seu ouvido. Era o momento mais assustador da noite, ficar em dúvida se estava imaginando uma assombração com a voz do seu marido.

— Estão? — Dorothy correu o olhar pelas árvores atrás dele, podia escutar os sons próximos de pessoas à beira do bosque. — Por quê?

— Assombrei alguns lordes mal-intencionados.

— Fuja logo! Seu inconsequente!

A lanterna balançou e por mais que não pudesse ver o rosto dele, era como se Dorothy pudesse sentir o sorriso macabro que acompanhou a próxima frase:

— Sobrou tempo para caçar damas destemidas — ele deu um passo na direção dela. — Tem certeza que é seguro acreditar em mascarados na véspera do dia das bruxas?

Dorothy não tinha mais certeza de nada. Mas não estava louca, aquele era o desgraçado do seu marido e ele era assustador. Mas nunca para ela.

— Corra lady Wintry, vou alcançá-la — mandou ele.

Ela se virou e correu. Os dois já tinham combinado isso, se ele lhe dissesse para fugir, ela devia atender. Apesar de assustar os camponeses e habitantes locais com seu comportamento ousado para uma condessa, Dorothy era uma dama destemida, mas não uma espiã como o homem com quem se casou. Ela era rápida e se escondia bem, qualidades que Tristan disse serem imprescindíveis para sobrevivência.

Passos se aproximaram, ela se afastou das vozes, seus sapatos quebravam galhos, delatando sua posição. Ela jurava que corria na direção certa, mas não era uma navegadora. Não se guiava por estrelas, tampouco conhecia o local ao ponto de se localizar em meio a árvores iguais. E sem luz. Por Deus, ela era uma dama normal sim! Gostava de chá bem doce e quente, de bolo e pudim, fitas e meias. E de botar seus pés cansados em almofadinhas enquanto relaxava perto da lareira. Podia ter gostos peculiares e um marido perigoso, mas não se envolvia em fugas em noites escuras.

Muito menos fugas em plena véspera de dia das Bruxas.

BAM!

BUM!

Um tiro! Ela escutou um tiro! Tiros! De armas diferentes!

Era a noite dos espíritos, por que estavam atirando? Lorde Bardon iria se ver com ela. Era tudo culpa dele e de seus convidados. Podia não ser uma espiã, mas era uma dama com uma língua afiada. E ele receberia uma visita desagradável assim que tudo isso…

— Aaah! — gritou ela quando foi puxada do caminho e levada para junto de uma árvore.

— Caminho errado, lady Wintry.

— Seu maldito! — acusou ela.

Não havia mais lanterna, ao menos ela não viu luz alguma e as duas mãos dele estavam livres, porque sentiu quando ele apertou sua cintura.

— Sabe, madame, ser um espírito que vaga pela terra eternamente é cansativo e solitário. Não devia se aventurar nos meus domínios.

Ele estava com um cheiro diferente, passou tempo demais na floresta. Dorothy levantou as mãos e tateou, sentindo as madeixas densas entre os dedos, mas elas estavam presas pelo laço da máscara.

— Não são seus domínios — retorquiu ela.

O mascarado tomou a frente dela, escondendo-a de qualquer coisa ou pessoa que aparecesse atrás dele, mas prendendo-a contra a árvore.

— Meus domínios são onde você estiver — informou ele, inclinando-se sobre ela.

Ele soltou o laço da capa que usava e Dorothy sentiu a máscara arranhá-la, estava escuro e a sensação estranha do material de madeira causou um arrepio e ela sugou o ar, como uma jovem escandalizada. Ouviu a risada dele e se já não soubesse, teria certeza que aquele era o seu maldito lordezinho sujo.

— Eu desconfiei, mas achei que era impossível — sibilou ela, ofegante. — Como você poderia ter chegado até aqui e começado essa confusão?

Tristan arrancou a máscara, irritado por não conseguir sentir a pele dela, estava todo coberto, além das calças, camisa, casaca de frio, usava botas, luvas, um lenço grosseiro no pescoço e a máscara. Não conseguir tocar a sua Dot enquanto ela estava tão perto era um tormento.

— Eu termino confusões, madame — livre da máscara, ele esfregou o rosto no pescoço dela, matando a saudade do seu cheiro. — Você nunca esteve sozinha, eu a acompanhei desde que chegou aqui.

— Você é um bandido! Seu…

Ele virou o rosto e cobriu a boca dela, beijando-a com avidez e saudade. Bastava uns dias viajando que sofria de abstinência dos beijos de sua Dorothy. Viaja por aí e pensava no quanto seria muito mais prazeroso se pudesse provocá-la e até irritá-la, só para vê-la começar a rir e atacá-lo com sua língua cortante.

— Uma fada? Perdida na floresta escura? — ele deslizou a mão sobre as coxas dela, sentindo a gaze que cobria o tecido do vestido, responsável por dar aquele ar etéreo a saia dela.

— Solte-me e fuja daqui!

Em vez disso, ele emaranhou o vestido, subindo-o pela coxa dela até enfiar a mão por baixo e encontrar a meia grossa que a protegia do frio noturno. Dorothy se remexeu, as mãos escorregando no tecido da casaca dele, puxou o cabelo escuro que Tristan estava usando novamente num corte que cobria seu colarinho. Ela tirou o cabelo de dentro do esconderijo do lenço, sentindo as mechas escuras entre os dedos da mão direita. A mesma mão que ela usou para atirar, pois manteve a luva da mão esquerda.

— Pague sua prenda de dia das bruxas.

— Ainda não é meia-noite.

— Sempre é meia-noite no meio da floresta escura, lady Wintry — o aviso dele devia soar como uma ameaça, mas Dorothy suspirou de entusiasmo.

Ela o segurou pelo pescoço e o beijou, pagando a prenda que ele pediu, sabendo que aquele homem jamais seria aplacado por um único beijo como pagamento.

— Você cheira a perigo. Suor, floresta, sabão e pólvora. O que mais fez esta noite, seu sem-vergonha?

Ele a imprensou, passou a mão direita por baixo da coxa roliça, embolando ainda mais o vestido e puxou a gola dela com os dentes, como o espírito amaldiçoado que fingia ser naquela noite.

— Solte o meu vestido!

A próxima mordida dele foi bem na curva do pescoço dela e Tristan sugou a pele, como uma criatura faminta, mas era seu desejo saindo de controle, temperado pela falta de tempo, os dias que passou longe dela e pelo perigo do que faziam.

Dorothy gemeu e se agarrou aos ombros dele, enfiou as mãos por baixo da capa, encontrando mais roupa para deixá-la frustrada, queria sentir os músculos e pele quente que ela conhecia bem. Os tecidos dos trajes dele eram grossos, porque ele estava vestido para aguentar o frio noturno de uma floresta por horas.

— Maldição — resmungou Tristan ao parar de beijá-la.

Ele agarrou a luva da mão esquerda com os dentes e puxou com violência, livrando-se da peça e talvez rasgando no processo. Colocou a mão por baixo do vestido de Dorothy e grunhiu de satisfação ao tocar a pele dela, acima da presilha da meia.

— Isso… — ele apertou, marcando a coxa dela. Não podia vê-la, seguia pelo tato, cada vez mais desejoso e igualmente frustrado por não poder ver seu rosto, seguir suas reações e admirar o que lhe causava. — Abra-se mais para mim.

— Você vai me rasgar — sussurrou ela, imaginando que a gaze já estava em frangalhos. E havia o mesmo tecido cobrindo as mangas longas do vestido.

Ele puxou o calção íntimo, rasgando a parte interna, bem sobre o sexo dela e Dorothy se agarrou a ele, beijou-o com um cuidado cheio de sensualidade que destoava da situação e acendeu ainda mais o desejo dele. Depois desse tempo juntos, ela ainda tinha a adorável e excitante ideia de distraí-lo ou aplacá-lo com beijos.

— Está com gosto do couro da luva — ela sussurrou contra ele.

— Eu quero sentir outro gosto, escondido bem no meio das suas pernas — contou ele, ao subir a mão e cobrir o sexo dela.

Tristan sequer a provocou com os dedos como um aviso, segurou o que queria e podia ter naquele momento. Abaixou a cabeça, esfregando o rosto no colo dela, mas era uma noite fria, não havia decote suficiente para alimentar o anseio dele por encher a boca com a pele dela.

— Abra os botões — mandou ele.

Dorothy colocou as mãos entre eles e soltou os botões que expunham pouco, pois o verdadeiro fecho do vestido era nas costas. Sentiu vontade de imitá-lo e arrancar a luva com os dentes, pois sua mão suava. Tristan abaixou a cabeça e beijou bem no espacinho que foi aberto, no meio do colo dela, próximo às curvas superiores dos seios, presos pelo corpete.

— Direi que fui atacada por um demônio — ofegou ela, sentindo as pernas bambearem.

— É a noite dos fantasmas, meu bem — ele esfregou três dedos entre os lábios externos do sexo dela, sentindo-os ficarem molhados. — Os demônios vêm em outro dia.

Ela trincou os dentes e sua cabeça foi jogada para trás, seu penteado agarrou na árvore, terminando de se desfazer. Ele espalhou a umidade dela e provocou o clitóris, fazendo-o pulsar. Dorothy tentava manter a perna presa nele, mas era a coxa de Tristan que a segurava do jeito que ele queria. Já estava escuro, mas quando escondeu o rosto contra a camisa que ele vestia, ela se perdeu num casulo de imaginação e sensualidade, permeados pelo cheiro daquele maldito.

Dorothy respirou contra o tecido e moveu o quadril, ele deslizou dois dedos para dentro dela, deleitando-se com o quanto ela estava molhada. Tristan agarrou o topo do que sobrou do penteado dela, puxando sua cabeça e a beijou, provocando-a para se esfregar em sua mão.

— Cavalgue mais rápido, lady Wintry. Está ouvindo os passos? — murmurou ele, chapiscando os lábios dela ao falar tão perto.

Os dedos dela agarraram os ombros fortes do seu fantasma, seu quadril se movia, pois queria o prazer que roubava sua respiração. E seu encontro estava disposto a entregar. Os galhos quebravam cada vez mais perto e Tristan tirou os dedos encharcados, castigando o clitóris dela com movimentos curtos, de um dos jeitos que ele sabia fazer para manipular o prazer dela. Dorothy gozou, ofegando no peito dele, Tristan a segurou e amaldiçoou umas dez vezes entre os dentes.

— Desgraçados malditos, eu vou matar todos eles — resmungou ao abaixar a perna dela a girá-la.

Ela podia ouvi-lo, mas estava perdida. Engoliu a saliva e apoiou as mãos na árvore. Deixou escapar um som estranho que soou como uma risada esbaforida. Tristan se moveu atrás dela e Dorothy não fazia ideia do que ele estava aprontando agora, mas foi agarrada pela cintura e carregada por vários passos.

— Você não vai matar ninguém, ouviu? Nada de matar vizinhos — a voz dela saiu entrecortada enquanto ele a carregava com um braço e segurava a máscara que recuperou na outra mão.

Ele a colocou no chão com um baque, virou-a na direção certa e continuou atrás dela.

— Fuja lady Wintry. Vou despistar os cachorros. Estes são reais.

Mais uma vez, Dorothy não hesitou ao seguir em frente, só que dessa vez suas pernas não foram tão rápidas. Podia ouvir vozes, passos espalhados e sons de cachorros. E seu corpo traidor pulsava de adrenalina, por causa do gozo e da fuga. Onde ela estava com a cabeça quando casou com aquele maldito homem másculo, perigoso e imprevisível? Ele era um espião e ela preocupada que alguém ali o pegasse.

Com esse pensamento, Dorothy fugiu de todos os crimes que cometeu essa noite. Mas ficou chocada ao ver como estava perto da beira do bosque e pouco a frente ficava o fim da linha de árvores, perto de onde estava o coche dela.

— Peguem! Os mal feitores estão por aqui, os cachorros sentiram um cheiro! — gritou um homem, acreditando que estavam em busca de um bando que atacou os convidados.

Ela engoliu a saliva, não podia correr mais do que cachorros, muito menos aqueles grandes. E se eles a alcançassem e…

Uma sequência de três assovios soou atrás dela e se havia um susto ainda maior para aquela noite, Dorothy quase caiu para trás. Estava a poucos passos de deixar as árvores quando cachorros grandes e ágeis entraram correndo após o assovio. Ela não parou, mas logo depois escutou rosnados e ganidos.

— Milady! O que lhe aconteceu? — gritou a governanta ao ver Dorothy sair do meio das árvores.

Ao lado dela, o cocheiro olhava embasbacado para a condessa. Dorothy chegou mais perto das lanternas e deu uma olhada em seu estado. Estava certa, o “passeio” em meio as árvores repuxou sua roupa, mas foi o maldito Jack’o que rasgou a gaze que adornava sua roupa. E por baixo do vestido seu calção íntimo também estava arruinado.

— Jack Astuto me perseguiu também — contou Dorothy, mas estava séria e calma, não condizia com a alegação.

— Eu disse que não era bom ir para essa festividade perigosa! — disse a governanta, reparando apenas na roupa e no cabelo desfeito da condessa.

— Os cachorros ficaram doidos! Pensam que ouviram um comando — comentou o cocheiro, coçando a cabeça.

Um dos empregados ajudou a Sra. Fennington, pois ela só foi até ali com mais empregados porque a notícia de acontecimentos terríveis chegou à casa do conde e disseram que aristocratas estavam sendo agredidos.

Mas antes que ela contasse essa novidade como se a condessa já não soubesse, os cachorros voltaram correndo do meio das árvores. E Dorothy descobriu que aqueles eram os seus animais. Ou melhor, pertenciam a propriedade, mas ela já estava apegada a eles, conhecia cada um pelo nome, não importava que fossem cachorros de caça e de guarda que nem moravam dentro da casa. Eles tinham seu próprio espaço e ela nunca tinha pensado neles como assustadores até aquela noite.

— Bom trabalho, Floco de neve! Você também, Poppy! — Dorothy foi fazendo carinho na cabeça dos cinco cachorros, chamando pelos nomes novos que ela deu para eles depois que chegou, bem mais carinhosos do que os anteriores. — Vem, Bernie! Vamos embora!

Dorothy ainda olhou por cima do ombro na direção das árvores antes de entrar no veículo, amontoando os cinco cachorros enormes lá dentro. Ninguém mais saiu atrás dela daquele lado do bosque, então alguém desviou atenção deles para outro lado. Jack’o era mesmo um cretino impossível, por isso que nem o inferno queria saber dele.

5 thoughts on “Halloween com Jack’o

  1. Dot, como sempre destemida e pronta para resolver uma mistério.
    E Lucy como sempre desvendando as superstições da época e nós presenteando com esse conto…..

  2. Ah mulher pode começar a escrever mais hein que saudade kkk agora vou reler tudo de novo kkk escreve mais vai

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *