

Capítulo 5
Dorothy acordou e achou que tinha imaginado tudo. A noite passada foi tão absurda que ela juraria que foi dormir cedo e sonhou com uma aventura sobrenatural. Até que virou na cama e viu que outro lado da cama estava todo remexido e o travesseiro estava fora do lugar. Porque Tristan podia ser um espião incrível, silencioso e letal. Mas ele fazia muita bagunça na cama, virava para o lado dela e jogava um travesseiro por cima, para apoiar o braço e poder abraçá-la. Depois virava de novo jogava o outro travesseiro no chão, dormindo de bruços em uma almofada. Enfiava-se embaixo das cobertas dela e quando levantava jogava a coberta dele no chão, porque ele era enorme e devia aceitar que precisava de uma coberta extra só para ele, mas o maldito não entendia isso.
Enfim, um caos de homem na cama, de todos os jeitos possíveis.
Ouvindo risadas infantis, Dorothy vestiu outro robe por cima da camisola que colocou antes de dormir e foi olhar a antessala. E adivinha quem estava lá com um bebê risonho entre as mãos grandes, balançando-o para diverti-lo.
— Então foi tudo verdade, seu monstrengo irresponsável — acusou Dorothy.
— Diga bom dia para a mamãe! — Tristan usava sua voz mais suave.
Joan já tinha um ano e pouco e podia andar, mas ela estava com o papai, então em vez de tentar descer, jogou-se de novo nos braços dele.
— Diiia! — gritou a bebê, com os braços minúsculos jogados sobre os ombros do pai.
Tristan riu com gosto e isso divertiu Joan que esticou a mãozinha e tateou o rosto dele, como se tentasse entender como aquele sorriso cativante funcionava. Mas apesar de amar o papai, Joan queria dar bom dia a mamãe e achou que podia se jogar dos braços do pai e voar. Dorothy foi pegar a filha e a abraçou, inspecionou seu rosto e sorriu.
— Não sei porquê ela tem os seus olhos, sabe? Um lembrete deveras inoportuno — brincou ela e apertou mais seu bebê, dando um beijo na bochecha gorducha.
Tristan observava as duas, uma expressão divertida e orgulhosa no rosto, é claro que a filha deles tinha muito dele. Ele adorou cada oportunidade que teve de produzir aquela criança, mas ele tinha certeza que a danadinha teria a personalidade da mãe. E ele ia adorar. Principalmente quando os dois tivessem mais filhos, algo ao qual ele se dedicaria com entusiasmo e também adoraria cada instante de sua participação. Até porque, sua Dot ficava ainda mais implicante e divertida enquanto estava grávida.
Por seu lado, Dorothy não era avessa a mais uns dois filhos num futuro próximo. O mais cômico é que ela queria ter um menino para caçoar de Tristan por semanas por os dois terem produzido um herdeiro. Afinal, até pouco tempo eram fugitivos da palavra casamento. E ela mal podia esperar para dar essa notícia aos outros Thorne, pois desde que se tornou condessa de Wintry, contrariá-los era um dos seus passatempos. E, se dependesse dela, aqueles mal agradecidos jamais voltariam a pisar naquela casa e a colocar as mãos no título que queriam tanto. Seria eternamente da linhagem dela e de Tristan, para pavor e desespero dos familiares deles e em prol do mundo, pois os filhos deles seriam incríveis.
— Vamos tomar café juntos? — Dorothy se virou antes de retornar ao quarto, apesar das ameaças que fez antes.
— Claro, amor. Vou esperá-la na sala matinal — prometeu Tristan.
***
Tristan desceu as escadas em passos ágeis e silenciosos, podia ouvir as vozes no saguão e assim que apareceu deu um susto nas duas mulheres.
— Lor… lorde Wintry! — gritou a governanta, empalidecendo.
A camareira permanecia petrificada, com as duas mãos sobre a boca e os olhos arregalados.
— Bom dia, senhoras — cumprimentou ele.
— Mas… Mas como o senhor chegou sem ser anunciado?
— Eu sou discreto, estava cansado, fui me refrescar primeiro — contou ele, mostrando bom humor.
E a camareira só piscava.
— Então seja bem-vindo de volta, milorde. Acredito que a condessa já o viu, pois…
— É claro que ela me viu, eu adoro acordá-la com surpresas — o sorriso dele era tão charmoso que a camareira até descongelou e a governanta colocou a mão sobre o peito, relaxando. — Aliás, ainda temos algumas flores para a sala matinal? Preciso agradar a condessa depois de viajar tanto — contou ele, encantando as senhoras desavisadas.
Se o conde esteve com a esposa desde cedo, significava que ela não estava falando sozinha, certo? E que os sons estranhos podiam ser ele e suas malas ou… Onde estavam as malas dele?
— Vamos, vamos, mexam-se. Milorde e milady vão querer seu desjejum em quinze minutos — o Sr. Giles, o mordomo, surgiu no saguão, sobressaltando as duas mais uma vez e liderando os lacaios que levavam as bandejas.
Elas ficaram sem palavras, pois o Sr. Giles tinha viajado junto com o conde. Ele também entrou antes do sol nascer? A camareira saiu numa carreira e até tropeçou na escada, a Sra. Fenington enrolou a beira do avental e olhou os dois homens.
— Temos um problema, por isso eu estava indo checar se a condessa já estava disponível. O vizinho, ou melhor, visitantes vieram fazer perguntas e precisam falar com…
— Comigo — interrompeu Tristan. — Não se preocupe, Sra. Fenington. Os vizinhos me adoram.
Em vez de convidá-los para entrar, Tristan apareceu na porta principal, observou seus vistantes, colocou as mãos nos bolsos e desceu os degraus como se não tivesse compromisso algum em sua agenda.
— Lorde Wintry, não sabíamos que já havia retornado — comentou lorde Scrope, o filho de lorde Bardon e verdadeiro responsável pelo banquete e pelos convidados.
Tristan observou o rosto dele por um momento, deixando o homem desconfortável e mantendo os outros em suspensão. Scrope estava acompanhado de alguns empregados, do coitado do meirinho que depois da bebedeira da noite passada estava dormindo em pé. Também havia dois homens do vilarejo que serviram como testemunhas do que aconteceu, assim como o administrador do vizinho da outra propriedade que não tinha culpa alguma na balbúrdia da noite passada, mas era envolvido em tudo que acontecia na região.
— Deixe-me ver se entendi, o senhor veio até aqui, no primeiro horário da manhã do dia das bruxas, para acordar a minha esposa? — do jeito que Tristan colocou a pergunta, ficou parecendo um crime.
— Não… — negou Scrope.
— Sabendo que eu não estava em casa — continuou ele, ignorando a resposta.
— O senhor está — Scrope disse rápido, como se consertasse a gafe.
— Não gosto que perturbem a minha condessa — avisou ele e seu olhar tinha mudado para a versão silenciosa de uma promessa de horrores que pessoas comuns só podiam temer, pois não fazia parte da vida delas sequer imaginar do que Tristan era capaz.
O meirinho acordou e se endireitou, era sua vez de explicar, mas ele só alternava o olhar entre Scrope e Tristan. Os outros estavam agarrados as rédeas dos cavalos.
— O senhor soube que alguns dos meus convidados foram atacados na noite passada, homens dignos, de meu conhecimento, até amigos de colégio — começou Scrope.
Tristan cruzou os braços, imperturbável.
— O senhor sabe como são as noites de véspera do dia das bruxas no vilarejo — disse o meirinho, sem jeito, procurando apaziguar.
— Mas não quando atingem os meus convidados! — reagiu Scrope, no alto de sua arrogância.
— Estão todos vivos? — indagou Tristan, fazendo os homens se concentrarem nele, surpresos por essa ser a única reação dele.
— Sim, estão, mas… — informou o meirinho.
— Houve uma história sobre a sua senhora ter estado nas festividades — começou Scrope, tentando dar um teor venenoso a alegação.
— É claro que esteve — confirmou Tristan, cortando a linha de raciocínio do homem.
— E disseram que ela foi vista com uma pistola — continuou ele, pois esse comportamento para uma dama era tão escandaloso que ele nem precisava se esforçar para envenenar a alegalão.
A boca de Tristan se elevou em um sorriso enviesado, contrariando a reação que os homens esperavam. Ele a viu com a pistola, foi a primeira vez que Dot atirou no escuro, ela fez um ótimo trabalho, ele estava orgulhoso. Diria isso a ela durante o café da manhã.
— E que ela atirou em um dos meus convidados — completou Scrope.
Os homens estavam sem se mover mais uma vez, esperando a reação do conde e receosos por já terem sido vítimas da ira de Scrope quando ele soube que seus valiosos convidados foram mal tratados por aquela gente “abaixo deles socialmente” — palavras dele.
— Sorte a sua e do seu convidado que estava escuro. Do contrário, ela não teria errado — avisou Tristan, tão sério ao encarar o outro lorde que nem precisava fazer a ameaça.
O meirinho ficou enjoado e quase vomitou. Lorde Scrope estava apoplético. Os outros homens olharam entre si, numa mistura de diversão e apreensão. Em segredo, achavam ótimo que os convidados de Scrope tivessem levado uma sova, pois depois foi descoberto que eles pregaram peças no vilarejo e quem sabe o que fariam com as moças se Jack não tivesse se envolvido. As mulheres locais já tinham uma nova dama preferida, a infame lady Wintry, tão imprevisível quanto o marido.
— Então o senhor confirma que foi a sua esposa que deu o tiro? — Scrope foi obrigado a perguntar, será que o conde entendeu errado?
Tristan desceu o último degrau e chegou mais perto do meirinho que já estava verde de enjoo.
— Os convidados de lorde Scrope se animaram demais nas brincadeiras que resolveram pregar no vilarejo, o senhor não acha? Assustar moças e levá-las para longe da família é um exagero inaceitável e não pode se repetir — Tristan se virou para o lorde.
— Isso não permite que alguém os ataque e… — tentou justificar Scrope.
— Uma pena eu ter chegado apenas hoje cedo. Teria levado uma arma maior — do jeito que Tristan olhava Scrope, ele não soube o que responder. — Mas os espíritos fizeram o trabalho por nós, certo? — ele se virou para os outros e seu sorriso não conseguiu deixar nenhum deles aliviado.
— É, espíritos! Disseram que foi o Jack! Até viram a lanterna dele na mata — contou uma das testemunhas.
— Nós só queríamos…. — o meirinho engoliu a saliva quando Tristan fixou o olhar nele. — Só queríamos confirmar que foi mesmo a condessa que deu o tiro. Para não acusar alguém erroneamente.
— Pois é, não queremos que alguém seja acusado sem necessidade — concordou Scrope, desgostoso.
Tristan subiu dois degraus e voltou a parecer extremamente relaxado, vivendo uma ótima manhã de entrada de inverno.
— Os senhores não vão acusar ninguém. Não há provas — ele fixou o olhar em Scrope. — Mas tenho certeza que da próxima vez os ilustres convidados de lorde Bardon saberão se portar nas festividades locais. E a condessa não precisará atirar em ninguém. Até lá ela já estará usando uma espingarda de cano duplo, imaginem o estrago.
Os homens podiam imaginar, especialmente pelo tom grave que o conde usou e sequer deu uma risadinha depois, como se fosse uma brincadeira de camaradas. Ele era terrível, temível e não fazia nada para melhorar essa fama. Agora tinha arrumado uma esposa capaz de apavorar pessoas em plena véspera do dia das bruxas.
— Mas não se prendam por mim, vou tomar o café da manhã com minha senhora e contar que vocês mandaram cumprimentos — Tristan subiu os últimos degraus, mas se virou enquanto os homens montavam. — E não se esqueçam de mandar um mensageiro da próxima vez porque eu não gosto que perturbem a minha esposa, muito menos antes que ela tome o desjejum.
— Claro, milorde — o meirinho custou a montar, ainda tonto da mistura de álcool e do encontro com lorde Wintry.
Quando chegou a sala matinal, Tristan encontrou Dot já vestida para a manhã e com o cenho franzido ao ver que a comida nem tinha sido tocada. Tristan era o tipo que a esperava enquanto roubava biscoitos e frutas.
— Visitas tão cedo? — indagou ela.
— O meirinho veio me contar de suas aventuras de ontem a noite.
— E você fingiu que não sabia?
— Claro, meu amor — ele a envolveu pela cintura e inspirou o cheiro do seu cabelo. — Contei que nós esperamos que os convidados dos vizinhos se comportem melhor, assim não teremos que atirar em ninguém.
— Ótimo. Para ameaçar os outros você é muito útil para mim.
— Só para isso? Estou magoado, sou um marido esforçado — ele a provocou, levantando-a e balançando um pouco.
— E vários outros trabalhos que lhe arranjarei! — ela riu.
Depois do desjejum, Tristan a levou para aproveitarem o dia das bruxas de um jeito calmo e relaxante, afinal, ele estava em um novo período de folga daquele seu trabalho no departamento de espionagem inglês. Teria tempo para se divertir no inverno que passaria no campo com Dot e a pequena Joan.
Fim
Espero que tenham gostado e se divertido com esse meu exercício de escrita que valeu pelo mês todo. E por saber como andam Tristan & Dot. Para você que caiu aqui sem entender nada, eu estava muito atrasada em cumprir os exercício de escrita, então fiz enquetes com as leitoras no nosso canal do Instagram e a votação delas resultou nesse conto. <3
Curiosidade sobre a “linhagem de Tristan e Dot”
A Dorothy estava certa em pensar que a linhagem deles que vai ser eternamente dona de tudo e dos títulos. Inclusive, várias de vocês conhecem e são obcecadas por um ramo em especial da linhagem de Tristan e Dot. O segundo filho deles é o herdeiro que continua a linhagem dos condes de Wintry. Porém, a filha caçula deles, a lady Isadora, daqui a alguns anos vai se casar com… UM WARD. E ela tem três filhos: Roman, Anton e Joan. O Anton tem filhos e é tataravô do famoso SEAN WARD. O Roman tem filhos e é tataavô do infame JARED WARD. A Joan também tem filhos, são os primos dos Ward atuais, com outro sobrenome. HAHAHAHAHA Dorothy sabia o que dizia!
Bjuxx e até a próxima.
Lucy

Como sempre esses dois sabem agitar as festas🎃🔥👏🍯🔥
Adorei rever Dor e Tristan!!! Obrigada Lucy!!!
Dot, como sempre destemida e pronta para resolver uma mistério.
E Lucy como sempre desvendando as superstições da época e nós presenteando com esse conto…..
Ah mulher pode começar a escrever mais hein que saudade kkk agora vou reler tudo de novo kkk escreve mais vai
Foi maravilhoso ter um pouquinho mais de Dor e Tristan